Sempre acreditei que meu papel como cronista é organizar — ou provocar — o caos. E, sendo também bibliotecário e museólogo, carrego a estranha missão de catalogar o infinito… inclusive aquilo que corre nas veias.
Recentemente, ao abrir meu mapa genético, deparei-me com surpresas curiosas: 6% de DNA amazônico (o que explica muito das minhas artes) e outros 6% magrebinos. Para quem não está familiarizado, o Magrebe é aquela região lendária do Norte da África — e ser “magrebino” é herdar o sopro místico de terras como o Marrocos.
Para a ciência, é apenas um fragmento. Para o meu DNA artístico, porém, esses seis por cento são território habitado por Jinn — gênios, mas não os caricaturados em histórias de lâmpadas mágicas, e sim, os de fogo invisível, livres, atravessando o nosso mundo sem pedir licença.
Foi quando entendi: minha arte não nasce de mim, mas atravessa-me, feita de camadas ancestrais. Quando pinto a força de uma sereia indígena ou o olhar de uma guerreira africana, talvez eu apenas empreste as mãos para que histórias antigas continuem sendo contadas — histórias que nem o tempo consegue apagar.
Essa descoberta ecoou de forma quase mágica neste 23 de abril, o Dia Mundial do Livro. A UNESCO promoveu uma simbólica passagem de bastão: o Rio de Janeiro entregou o título de Capital Mundial do Livro à cidade de Rabat, no Marrocos.
Na Biblioteca Sociedade Das Artes, que é parte do Museu ReArte, celebramos essa ponte invisível com o evento “Do Brasil ao Marrocos” — um encontro que colocou Serra Negra no Mapa dos Eventos Literários do Brasil, recém lançado pelo Governo.

Entre o aroma do café serrano e o frescor do chá de hortelã marroquino, vivemos uma noite de verdadeira imersão. Lemos crônicas nascidas em nossas montanhas e mergulhamos em contos marroquinos, comentados a partir da brilhante tese de doutorado de Fedra Rodrigues, que gentilmente enriqueceu nosso acervo com um exemplar de sua pesquisa.
E, enquanto as xícaras se sucediam, era impossível não perceber: talvez fosse o mesmo fogo invisível — desses que os Jinn conhecem bem — que aquecia a torra do café, enquanto a hortelã, fresca como um sopro do deserto, lembrava que nem tudo o que move o mundo precisa arder. Entre um e outro, nesse território invisível, algo em nós também se acendia.
Mais uma prova dessa sincronicidade mágica repousa tanto no museu quanto na memória da minha família. Exibimos a insígnia do 5º Exército Americano, trazida da Segunda Guerra pelo meu tio, o expedicionário serrano Ari Vieira. Em sua estampa, curiosamente, surge a imagem de uma mesquita marroquina! O plano inicial previa que os pracinhas brasileiros desembarcassem exatamente ali — nas terras dos meus 6% de DNA. Mas, no último instante, o destino mudou o rumo: a Força Expedicionária Brasileira seguiu para a Itália, de onde vêm outros 59% da minha origem.
Se apenas 1% de diferença genética nos separa dos outros primatas — e já nos concede o dom da poesia —, imaginem o que pode nascer dessa mistura de café da montanha com hortelã do deserto! Talvez seja justamente aí que o invisível encontra forma: nesse fogo que não se vê, mas que persiste — atravessando o sangue, habitando a memória e, sem pedir licença, transformando tudo em arte!
