“Meliantes” x “Bombeiros”: Que Vença a Arte!

Aplausos para “Os Meliantes Do Cortiço 9” - Ilustração: Henrique Vieira Filho

Dizem que o teatro de rua é a arte suprema de domar o caos! Na recente apresentação da peça Os Meliantes do Cortiço 9, escrita e dirigida pela querida Dalila Praxedes Frazão, o desafio não era apenas o burburinho natural da cidade; era uma verdadeira guerra acústica…

De um lado, a poesia visceral da Cia. Raízes da Alma a ocupar o palco com dignidade. Do outro, um restaurante próximo que decidiu transformar o ato de servir drinques em um simulado de desastre ambiental, disparando berros de “BOMBEIRO!” a cada novo pedido.

Para quem navega no espectro autista, a vida não possui um botão de volume. Convivo com a hiperacusia, uma hipersensibilidade que faz com que meu cérebro não consiga filtrar ou “abaixar” os sons do mundo; ele os recebe em estado bruto e, muitas vezes, fisicamente doloroso.

Enquanto eu tentava mergulhar na narrativa de Dalila, meu sistema nervoso era bombardeado por granadas sonoras. Fiz as contas — e meus ouvidos confirmaram o cálculo: três garçons berrando juntos atingem aproximadamente 95 decibéis (a unidade que mede a intensidade do som). Para se ter uma ideia, isso equivale a uma furadeira industrial ou uma serra circular operando ao lado da sua poltrona. É o que chamamos de ruído de impacto, um som brusco que aciona o nosso modo de “luta ou fuga” instantaneamente.

A ironia é digna de uma comédia de costumes. A poucos metros dali, a Cia. Raízes da Alma projetava vozes e corpos para manter a “quarta parede” — aquele limite invisível entre atores e público — buscando superar o berreiro alheio. Deu certo, pois, ao final, a plateia de cerca de cem pessoas, explodiu em aplausos entusiasmados. 

Sabe quantos decibéis duzentas mãos batendo produzem? Cerca de 85 dB. Ou seja: o esforço coletivo de dezenas de seres humanos para celebrar a arte ainda é mais silencioso e harmonioso do que o marketing agressivo de sujeitos servindo um drinque. 

O aplauso é um som percussivo, espalhado e orgânico, enquanto o berro do restaurante é uma invasão de espaço que ninguém deveria ser obrigado a consumir.

Já vivemos esse mesmo “incêndio sonoro” quando o nosso Ponto de Cultura ReArte apresentou o espetáculo de Sereismo, com canto, dança e exposição, na mesma praça. Parece que a etiqueta cultural — aquele conjunto de regras de convivência que garante a imersão na obra — ainda luta para ser compreendida em espaços abertos. 

O teatro de rua é democrático, sim, mas exige bom senso para que a “magia” não seja assassinada por um “spam sonoro”. Para o meu cérebro, ocorre o que a acústica chama de recrutamento auditivo, quando um pequeno aumento no volume é percebido como um salto gigantesco de dor física. Minha cabeça vira uma bigorna e o grito alheio é o martelo.

Felizmente, nem os pseudos-“bombeiros” conseguiram apagar a verdadeira chama que iluminou a praça: o talento dos “Meliantes” no palco! 

No teatro, o silêncio não é um vácuo, mas uma prece à espera de uma resposta. E a única quebra de protocolo que realmente importa — e que é imensamente bem-vinda — é o trovão dos aplausos, aquele som orgânico que não agride, mas agradece. 

E, é para essa harmonia que convido a todos para o nosso próximo encontro no Museu ReArte. No dia 9 de março, às 19h, abriremos as portas para  “A Era de Ouro do Cinema”, com a presença do nosso arquivista da alma, Nestor Leme

Vamos trocar o ruído dos 95 decibéis pelo brilho silencioso dos clássicos cartazes de cinema e pelos “causos” de uma época em que a criatividade não precisava berrar para conquistar.