Arte Contemporânea

Transcrição do Artigo "A ARTE INDICIA O FUTURO?", de Clotilde Perez, publicado na Revista CASA E JARDIM - página 138 - AGOSIO - 2017 - Coluna DELEITE - SENTIDOS DO HABITAR 

Aprendi que a arte, em toda a sua diversidade expressiva, aponta o futuro.
A sensibilidade do artista para sentir o espírito do tempo faz transbordar na sua criação o porvir, em manifestações nem sempre óbvias, mas decifráveis aos espíritos investigativos mais sofisticados e sensíveis.
Bem, se essa premissa é verdadeira, não estamos nada bem.
As mais recentes manifestações de arte contemporânea, digo aqui as institucionalizadas, como bienais e feiras internacionais de arte, mostras e exposições em galerias etc.,vêm nos oferecendo um acervo de criações que nos mostram um futuro sombrio.
Gostaria de me ater à minha recente visita à Documenta 14, em Kassel, na Alemanha, um dos mais importantes eventos de arte do mundo.
Destaco as obras do pavilhão Neue Neue Galerie [Nova Nova Galeria).
Um painel imenso com o prognóstico TerraNuIlius e o Triunfo da Bestialidade, do australiano Gordon Hookey, nos recebe na entrada; a cortina de carcaças de bois ou um vestido branco constituído de microcarcaças, ambos da norueguesa Máret Anne Sara, chamam atenção;
um amontoado de cabeças de animais decapitados da nigeriana Otobong Nkanga, mas também feixes de luz tão potentes que nos impedem de olhar, nos fazem pensar;
a frase que ecoa na simetria perturbadora "no íeoders, no heroes, no ido's, no mosters", do espanhol Daniel Garcia Andújar, corpos amputados no esforço de movimentar-se, sacos de estopa rasgados, ruínas, restos, falhas, uma após a outra, essas obras nos inundam.
Essa pequena mostra reúne artistas diversos, mas que na essência gritam no mesmo tom: morte.
Todas elas nos revelam um futuro de tristeza e de sofrimento, de morte física, mas também simbólica.
Alguma esperança no fim do túnel? Sim, ainda que poucas. Encontrei na obra de Marta Minujín, intitulada Porthenon de livros, uma acrópole em tamanho real, construída com 100 mil livros banidos por vários motivos, uma luz.
Ainda que possamos entendê-la como o colapso da democracia, está também ali a resistência do livro.
Com uma estratégia que a torna exuberante e sensível, cada exemplar foi envolvido em plásticos transparentes, o que permite a exploração do som e, de noite, da iluminação da praça que também abriga o museu Fredericianum, o local onde, em 1933, milhares de livros foram queimados pelos nazistas.
Aqui o político e o critico se encontram com o belo. Para mim um resgate do que é a arte.

Clotilde Perez (Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.) é semioticista, professora da USP e da PUC-SP e fundadora da Casa Semio.

CASA E JARDIM - página 138 - AGOSIO - 2017 - Coluna DELEITE - SENTIDOS DO HABITAR

 

 

Published in Arte

NewsLine is a full functional magazine news for Entertainment, Sports, Food website. Here you can get the latest news from the whole world quickly.

Photo Gallery